Capítulo de livro: O SUS e os desafios da saúde digital: Por uma universalidade democrática

A transformação digital da saúde é frequentemente vendida sob uma aura de inovação inevitável e redentora. Mas, nenhuma tecnologia opera no vácuo político ou social. No capítulo escrito com Marisol Marini e Marko Monteiro para a coletânea internacional mHealth: Intersectional Ethics for a Global Society (Oxford University Press), analisamos como a governança da saúde digital no Brasil reflete uma disputa profunda sobre os próprios pilares da nossa democracia: a universalidade e a equidade.

Ao examinar as políticas e a Estratégia de Saúde Digital formuladas durante o governo Bolsonaro, identificamos como o discurso oficial se apoiou no tecno-solucionismo — a promessa simplista de que plataformas digitais e telemedicina resolveriam os gargalos estruturais e de distribuição médica do país. Por trás dessa retórica gerencial, observamos uma dinâmica que denominamos tecno-obliteração: o risco de desmantelar arranjos públicos e conhecimentos locais consolidados no SUS para favorecer a mercantilização de dados e a entrada do setor privado. Em vez de sanar iniquidades, a substituição cega do cuidado territorial pela precariedade digital em regiões desprovidas de infraestrutura apenas reproduz a exclusão.

O caminho para enfrentar esse desafio não é negar a tecnologia, mas integrá-la à inteligência e à arquitetura viva do SUS. É na capilaridade de programas como a Estratégia Saúde da Família e na atuação indispensável dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) que reside a resposta para humanizar a saúde digital e torná-la equitativa. Os ACS, que já transitam no cotidiano das comunidades, têm o potencial de ser mediadores cruciais para o letramento digital em saúde, assegurando que as ferramentas apoiem as realidades locais em vez de ignorá-las.

A história de luta pela redemocratização que deu origem ao SUS e seu modelo de governança participativa mostram que o sistema público não precisa ser salvo por soluções prontas de mercado. Pelo contrário: a consolidação de uma saúde verdadeiramente digital no Brasil depende de reafirmar a universalidade, a integralidade e a equidade que sempre fundamentaram o SUS.

O livro completo foi publicado em acesso aberto pela Oxford University Press e pode ser consultado gratuitamente.


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