Capítulo de livro: O que a epidemia de Zika nos ensina sobre ciência, saúde global e desigualdades?
Quando os primeiros casos de anomalias congênitas associadas ao vírus Zika surgiram no Nordeste brasileiro, entre 2015 e 2016, o país colocou a comunidade científica internacional em alerta. Em questão de meses, a confirmação da causalidade entre o vírus e as más-formações fetais transformou o episódio em uma emergência de saúde pública de importância nacional e internacional. Mas o que acontece nos bastidores quando uma crise sanitária local entra no radar da saúde global?
No capítulo “A influência da saúde global no Zika vírus: disparidades sociais e prioridades”, publicado na coletânea Medicina e sistemas de saúde: hospitais, doenças e trajetórias (Editora Hucitec, organizada por Ana Nemi, André Mota e Cristina de Campos), analisamos esse episódio a partir das lentes dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT) e do mapeamento de controvérsias.
A pesquisa, fruto de 50 entrevistas com gestores, pesquisadores e famílias afetadas em oito estados brasileiros, revela como a ciência e a gestão pública lidaram com uma complexa corda bamba:
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Protagonismo científico vs. Dinâmicas de extração: A ciência brasileira garantiu um protagonismo decisivo ao descrever o vírus, comprovar sua causalidade e definir o quadro clínico da Síndrome Congênita do Zika. Ao mesmo tempo, houve forte resistência para evitar que o país fosse tratado como mero exportador de amostras biológicas e dados — uma dinâmica centro-periferia histórica em crises sanitárias.
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A “securitização” e o foco exclusivo no agente etiológico: Para atender à governança global de risco e aos critérios do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), a agenda prioritária concentrou-se no isolamento do vírus e no combate ao vetor (Aedes aegypti). Contudo, esse enquadramento estritamente biomédico acabou obscurecendo o debate estrutural: o impacto determinante do saneamento básico precário e das desigualdades socioeconômicas no adoecimento das populações.
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Governança do risco standard vs. Governança por consulta: A gestão da crise operou predominantemente sob o modelo standard, em que a tomada de decisão se concentrou em peritos e especialistas da bancada laboratorial. As famílias e sujeitos afetados — que detinham saberes práticos e cotidianos sobre a convivência com as sequelas e o cuidado — participaram como sujeitos de pesquisa, e não como coautores dos rumos das políticas públicas.
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